Simplesmente Uma História Real

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Simplesmente uma história real  

Alessandro Del Fiume foi um cidadão italiano nascido na medieval cidade de Florença, em 1871. Já quarentão apareceu aqui em Lavras no início de 1911. Era um artesão na confecção de flores em papel e nos mais variados tipos de tecido. Anunciava, através de boletins, um processo moderno de fabricação patenteado por ele em vários paises da Europa, na Argentina e no Brasil. Prometia ensinar em 5 dias por 80$000 pagáveis no final do curso. Quem não aprendesse não pagaria. Era portador de farta documentação recomendando-o como cidadão reto e digno de freqüentar qualquer residência ou instituição para ensinar a sua arte às senhoras e senhoritas.

Foi contratado para uma temporada no Colégio Nossa Senhora de Lourdes para ensinar alunas internas e externas. No colégio fez amizade com minha avó, que era italiana, trabalhava na lavanderia e conversavam no idioma pátrio deles.

Certo dia, ainda de 1911, Alessandro passou pela rua das Flores, hoje rua Saturnino de Pádua, onde residia minha avó. Naquele tempo essa rua era a última da zona leste da cidade. Dali em diante eram somente caminhos para a Baunilha e a Mata da Prudente. Alessandro portava uma sacola com algumas garrafas cheias. Saudou minha avó, trocaram algumas palavras convencionais no idioma italiano e logo se despediram. Alessandro desceu a rua da Ponte, hoje rua Benedito Valadares, atravessou o córrego da Santa Casa, subiu o morro, transpassou a ponte de madeira sobre a antiga linha férrea da EFOM, subiu mais alguns metros e sentou-se numa saliência no barranco à direita. Pegou as garrafas que continham álcool ou gasolina e com esse líquido inflamável empapou toda a roupa do corpo. Riscou um fósforo. Morreu carbonizado ali mesmo. Pessoas caridosas colocaram no local uma cruz de madeira que ficou conhecida como a Cruz do Florista.

Nasci onze anos depois, em 1922. Como o assunto perdurou por muito tempo eu, adolescente, ainda ouvia casos de assombração que aconteciam ali. Um clarão era visto à noite e perseguia quem se atrevesse a se aproximar daquele lugar.

Minha avó dizia:

Poverino! (pobrezinho!), foi uma paixão por uma beldade lavrense já compromissada com outro.

A cidade se expandiu também para aquele lado e aos poucos a região foi descaracterizando-se até que, devido ao aglomerado de residências, o fantasma sentiu-se com a intimidade invadida e desapareceu.

O local onde a cruz sempre esteve, está lá, coberto de arbustos. Se a gente se embrenhar neles é possível encontrar algum vestígio, pois ao redor da cruz sempre houve alguns restos de imagens quebradas.

Antigos moradores da região ainda se lembram de quando foram escorraçados pela alma do italiano.

Não sei por que, mas de uns tempos para cá, esse fato de vez em quando reaparece na minha memória. Eu sempre soube que Alessandro deixou um diário e que esse diário sempre esteve com o Bi Moreira. O que poderia constar nele? Algo para ser revelado? Seria eu o intermediário? Se o diário estava com o Bi, certamente agora deveria estar no Museu fundado e organizado pelo inesquecível jornalista. Procurei, então, o dedicado Ângelo Delfino, diretor do Museu. Em poucos minutos ele encontrou o solicitado volume, aliás, um bastante grosso. Emocionado, peguei-o em minhas mãos. Logo na primeira página está uma foto de Alessandro, seu nome completo, local e data de seu nascimento manuscritos.

Não é um diário. É um livro de recortes de jornais e revistas, folhetos anunciando cursos, documentos e fotos. Vê-se que era um meio para lhe facilitar a se apresentar por onde passava com o propósito de ensinar sua arte e ganhar o pão de cada dia. Encontrei ali mais de 350 recortes de jornais de cidades de 12 estados brasileiros, desde o Rio Grande do Sul, passando por São Paulo, Rio, Minas até o Amazonas, e muitas vezes voltando às cidades anteriormente visitadas; 32 fotos de alunas, grupos de formandas e de salões de exposição das flores; 5 documentos de autoridades e 22 recordações individuais de beldades da época. As exposições com trabalhos das formandas eram sempre em locais nobres como fóruns, clubes ou colégios de freiras, sempre abrilhantadas por banda de música. O álbum começa com a data de 1903, que deve ter sido o ano que Alessandro adentrou o Brasil depois de passar pela Argentina.

Vi vários recortes de jornais de São Luiz, Maranhão, onde apareceu um concorrente espanhol e cada um dizendo-se melhor que o outro. Alessandro, num desses recortes, desafia o rival para uma disputa em praça pública para serem julgados pela população. Houve réplicas e tréplicas, mas não consegui encontrar o final da contenda. Curioso: os recortes referentes a esse assunto estão todos colados de cabeça para baixo no álbum.

Há uma longa relação, por ordem de datas, de cidades por onde passou e ensinou. Vemos que esteve em São João Del Rei de 5 de Janeiro a 3 de Fevereiro de 1911. Logo em seguida chegou em Lavras, porém sem a data de sua chegada e sem qualquer referência escrita ou impressa sobre sua estadia na cidade. Eu soube do seu envolvimento com o Colégio N. S. de Lourdes pela minha avó, conforme expliquei acima.

Pesquisando nas coleções (nem sempre completas) de jornais antigos, encontrei na Folha de Lavras, de 16 de março de 1911, uma nota anunciando a presença do Sr. Alessandro em Lavras, avultando sua especialidade na fabricação de flores, tecendo encômios à sua pessoa e pedindo desculpas por não tê-lo anunciado antes. Nada mais foi encontrado.

Eu me sentia como um predestinado pela alma do morto para descobrir e divulgar a razão de seu tresloucado ato, mas não encontrei nada que justificasse meus pressentimentos.

Contudo vou colocar esta história na internet com vistas à cidade de Florença. Pode ser que eu esteja captando uma onda vibratória de algum membro da família Del Fiume que deseja, por curiosidade ou precisão, saber que fim teve seu tio ou avô que se embrenhou por este imenso Brasil e desapareceu-se de vez.

Quem sabe? 

Luiz Teixeira da Silva

Fevereiro de 2006

Friday the 24th.