Recordar é Viver

Imprimir

recordar 

          Revendo velhos álbuns de fotografias, amarelecidas pelo tempo, a gente faz uma saudosa viagem no tempo. Lembranças de entes queridos, ausentes ou falecidos. Registros de fatos ocorridos na nossa infância e na adolescência.

          A foto aqui estampada me transportou ao ano de 1932. Eu era um garoto de 10 anos de idade. Era o mês de outubro. Eu só dava conta das coisas atinentes à minha idade. Mas eu sabia que estava acontecendo uma revolução. Nos trilhos da Rede Mineira de Viação, assentados onde é hoje a nossa Avenida Perimetral, subia a locomotiva com muitos vagões repletos de soldados e pranchas com canhões e metralhadoras para lutar contra os paulistas, não sei em que lugar.

          Nós, garotos, instalávamos nos barrancos para apreciar a marcha lenta da locomotiva soltando brasas pela chaminé.

          Só muito depois fiquei sabendo que Getúlio Vargas, à frente de uma formação política, no Rio Grande do Sul, denominada “Aliança Liberal”, depôs o Presidente Washington Luiz e se investiu na presidência da República em 3 de novembro de 1930, prometendo uma nova e moderna Constituição.

          O povo paulista, cansado de esperar o cumprimento dessa promessa, promovia agitações nas ruas e reclamava a Constitucionalização do país. Iniciou-se então, em “9 de Julho” a famosa Revolução Constitucionalista de 1932, que durou até outubro, cujas consequências não cabe aqui comentar.

          Foi nessa ocasião que nós, lavrenses, vimos, pela primeira vez um aeroplano sobre Lavras. E que caiu aqui. E era inimigo. Era um avião dos revolucionários paulistas. Foi um alvoroço nunca visto, nem imaginável pelo povo de hoje. Pode cair aqui agora um ônibus espacial que não causará tanta agitação e medo como naquela época.

          Quando terminou a Revolução, os combatentes retornaram de trem para suas sedes. Num desses retornos, um batalhão fez uma parada aqui em Lavras, na Praça da Estação (Praça Dr. José Esteves) a fim de providenciar o almoço para a soldadesca. Foi um movimento inusitado, bem diferente. Vemos, à direita, na foto, a massa de curiosos apreciando a agitação dos militares. Eu estava lá. Lembro-me perfeitamente do tamanho do tacho de cobre, montado sobre pedras ou alguma armação de ferro, não me recordo, com muito fogo de lenha, e arroz fervendo e cheirando à alho. Os soldados em fila com pratos apanhando a comida. Está registrado em minha mente a cena do cozinheiro, com uma grande espátula de madeira, retirando aquela rapa dourada e engordurada do fundo do tacho. Fiquei com água na boca, confesso.

          Depois os soldados ficaram à vontade e se misturaram aos curiosos. Eles haviam invadido e saqueado uma cidade paulista. Muitos deles ofereciam à venda cortes de casimira e relógios de bolso e de pulso. Tenho na memória que o nome da cidade é Lorena, mas não tenho certeza.

          Era muita gente, e eu só fixei o tacho de arroz, não vi o resto do cardápio.

          Uns dizem que recordar é sofrer duas vezes, mas eu digo que recordar é viver... 

Luiz T. Silva 

Lavras, 3 de Junho de 2012

Friday the 24th.