No Tempo do Ventre-livre

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Conheci uma senhora que se chamava Maria Fortunata e era filha de escravos. Por ter nascido logo depois de 1871, foi considerada uma cidadã livre por força da Lei do Ventre Livre, mas continuou a viver como escrava na companhia dos pais que se achavam ainda no regime escravocrata. Na idade adulta veio para a cidade trabalhar na residência de Dr. Samuel Gammon. Foi um período bom na sua vida. Aprendeu um pouco do idioma inglês, tornou-se protestante, conhecendo e ensinando bem a Bíblia.

            D. Fortunata, então nossa vizinha, já idosa, era uma contadora de histórias. Na minha infância, junto com outras crianças, ouvíamos assustados seus contos de lobisomem. Quando eu era estudante, interessando-me por história, dialogava com ela sobre os casos do tempo da escravidão.

            Nunca sofri castigo e nunca vi conhecidos meus serem punidos, embora os instrumentos de suplícios sempre estivessem à vista de todos, pendurados nas paredes dos porões dos casarões – dizia D. Fortunata. – Sempre vivi na região de Lavras e nunca soube de castigos cruéis. Entretanto, minha avó me relatou que houve aqui, o enforcamento de um negro que havia assassinado o patrão, depois de ter apanhado muito. Ela e muitos outros escravos foram obrigados a assistir ao sacrifício. Reuniram-se na Praça da Igreja do Rosário (hoje Praça Augusto Silva), em cujo pátio foi mostrada ao condenado a sepultura onde seria enterrado. O séqüito seguiu da igreja até o Alto do Cruzeiro (no alto da cidade), onde havia uma árvore que, em um dos galhos o negro foi pendurado. Antes, uma pessoa caridosa ofereceu um bom pedaço de doce ao supliciado, que sendo recusado, prontamente foi devorado pelo carrasco.

            Antigos moradores do bairro ainda se lembram da Árvore do Enforcado.

            Essa história, que aconteceu no ano de 1831, foi há pouco confirmada pelo jornalista Eduardo Cicarelli, que encontrou nos arquivos da Prefeitura a documentação detalhada e completa do processo, com o relato do julgamento, da condenação e da execução desse negro que se chamava Joaquim Congo.

            Certa vez perguntei a D. Furtunata pela abolição da escravatura, que se deu em 1888 e, certamente, ela se lembrava.

            ­– Sim, lembro-me muito bem – respondeu a velha escrava – foi uma alegria muito grande entre os negros, mas muita confusa. Ainda permanecemos alguns anos trabalhando como meeiros no cultivo da terra, ou com salários muito baixo nas casas dos senhores. Muito pouca coisa mudou.

            De outra feita questionei-lhe como soube da proclamação da república e ela, solícita, respondeu-me:

            Lembro-me de ter ouvido falar a respeito, mas pouco entendi do que acontecia, e para mim nada houve de diferente. Nunca tinha visto rei na minha vida e nem notei a mudança do regime. Não sei como a notícia chegou aqui, mas, em 1914 ou 1915, ali perto da Igreja do Rosário, havia um sino no alto da estação do Bonde e quando havia uma notícia importante a ser divulgada tocava-se o sino. Uma pequena multidão se aglomerava na pracinha em frente ao sino e alguém (o arauto oficial) anunciava a novidade que se espalhava rapidamente pela cidade. Foi assim também que fiquei sabendo que havia uma guerra no mundo (A primeira Grande Guerra de 1914 a 1918).

Dona Fortunata, uma negra de boa fala, devido à convivência com gente culta, faleceu há mais de cinqüenta anos e com ela morreu um pedaço de nossa história.

Luiz Teixeira da Silva

Lavras, 2004

Wednesday the 20th.