Um Mineiro de Ouro

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tute jovem

Pequena História de um Grande Mineiro

Em novembro de 2010, nosso Tute foi escolhido pelo Jornal O Estado de Minas, para receber o título de “Mineiro de Ouro”. Na ocasião escrevemos sua biografia sucinta, que segue abaixo.

Experimentando Todas as Artes

Luiz Teixeira da Silva, que conta hoje com 88 anos, nasceu na cidade de Lavras, na região sul de nosso estado, no dia 1º de março de 1922. Seu pai era brasileiro, de origem comum, e sua mãe, italiana. Filha dos Cicarelli, imigrantes italianos, aqui chegara quando ainda contava com cinco anos de idade.

Sua família era humilde e sem recursos. Os avós trabalhavam na lavoura de café, e seu pai era seleiro, fabricante de selas e apetrechos para cavalo. Desse modo teve a oportunidade de cursar apenas o primário, pois seus pais não tinham recursos financeiros para sustentá-lo em um colégio, o que na época era muito caro, pois existiam os particulares. Ele sonhava em ser engenheiro civil, não havia, no entanto, como realizar seu sonho, senão ingressando no serviço militar. Entrementes, o Brasil, naquela época, acabara de entrar na 2ª Guerra Mundial e dispensou a classe de 1922, justamente por não ter como cuidar de novatos. Sua única possibilidade de crescer mostrava-se então ser o autodidatismo, tarefa a qual se empenhou durante toda a sua vida, com grande sucesso para sua formação intelectual, humanitária, espiritual e artística.

Para sobreviver, não tinha outra opção que procurar por um emprego. Ingressou assim no comércio, servindo como “caixeiro vendedor”. Em 1946 iniciou em uma loja de móveis, da qual, pela sua dedicação e empenho, veio a tornar-se sócio em 1953. Em 1960, o antigo proprietário mudou-se para o Rio de Janeiro e ele pôde adquiri-la. Aí trabalharia pelo resto de sua vida profissional, até 1978, quando enfim se aposentou.

Ainda jovem tornou-se espírita, enfrentando os preconceitos religiosos que até então eram intensos, sobretudo nas cidades interioranas. Em 1939, uma propaganda sobre Esperanto em uma revista espírita, despertou-lhe a atenção, e procurando informar-se melhor sobre o assunto, apaixonou-se pela proposta. Convencido de que somente um idioma internacional que fosse culturalmente neutro poderia unir com sucesso os povos do planeta, aprendeu-o em poucos meses. E logo iniciou uma série de correspondências com esperantistas de vários países, permutando selos e conhecimentos. Já durante a Guerra tinha vários amigos jovens na Alemanha e pôde ajudá-los, por diversas vezes, enviando-lhes pacotes de café, chocolates e medicamentos, através da Cruz Vermelha. Sua correspondência com certeza muito lhe ajudou na formação humanitária, ao fazer-lhe ver os horrores da Guerra e ensiná-lo a aceitar que nossas enormes diferenças culturais não deveriam nos dividir. Fez amizades com pessoas das mais diversas regiões do globo, muitas delas fomentadas até os dias de hoje. Curiosas histórias, auferidas nessas correspondências, acham-se relatadas por ele em algumas crônicas, publicadas atualmente em seu site. E por muitos anos, manteve na Loja maçônica de sua cidade, um curso de Esperanto para os interessados, tendo formado vários esperantistas que até hoje mantém acesa a paixão por esse idioma internacional.

Casou-se e formou inicialmente uma família com três filhos. Sua primeira esposa, no entanto, veio logo a falecer, deixando-lhe os rebentos ainda muito novos. Dois anos depois, uniu-se a novo matrimônio, recebendo mais três filhos, a compor sua bela família.

A pintura e o desenho o atraiam de modo especial, levando a empenhar-se no aprendizado autodidata dessas artes. Dotado de grande imaginação, criou várias histórias em quadrinho, as quais chegaram a ser publicadas na revista Gibi, da Editora O Globo, entre 1936 a 39. O personagem Tição e outros, como Gregório, ficaram famosos na época. O primeiro era um crioulo divertido, que participava em tiras de humor, distraindo os leitores do Gibi. Já o segundo teve sua participação em uma curiosa viagem à Lua, quando ainda não se cogitava essa possibilidade.

Em 1972, uma exposição realizada no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, lembrava os pioneiros da História em Quadrinhos no Brasil. Algumas das publicações do Sr. Luiz lá estavam, reproduzidas em grandes painéis, e na ocasião ele foi convidado a comparecer no evento, tendo recebido das mãos do cartunista Ziraldo uma especial homenagem.

Nosso mineiro de ouro experimentou, no entanto, todas as artes. Além da pintura e do desenho, aprendeu, também de forma autodidata, a tocar a sanfona, e para alegria de seus familiares, nas tardes domingueiras, ele executava baiões e modinhas populares próprios de sua época.

Depois de aposentado, decidiu ocupar-se da pintura como hobby, a fim de preencher seu tempo. A tinta a óleo, no entanto, mostrou-se nociva à sua saúde e então ele passou a realizar desenhos a bico de pena e aquarela, o que continua a fazer até os dias atuais. Realizou retratos primorosos, muitos sob encomenda, e produziu expressivo número de quadros e gravuras, espalhados entre familiares e apreciadores. Dominando ainda a arte da charge, teve várias delas publicadas na Tribuna de Lavras, o jornal local, que as recebia sempre com elogios. Uma de suas obras mais expressivas são os painéis decorativos do Novo Aeroporto de Lavras, realizados entre 2006 e 2007. Apesar de contar já com 85 anos de idade, nosso mineiro subia em andaimes para pintar imensos e belos painéis, retratando fatos marcantes da história da aviação.

Como colecionou selos a vida toda e contava com grande quantidade deles, decidiu abrir uma pequena loja, em 1981, a Filatélica LTS, que logo se expandiu para numismática e telecartofilia. Tornando-se bastante conhecida no ramo, encerrou suas atividades, no entanto, em 2002.

Aventurou-se também, com muito sucesso, na escultura, produzindo trabalhos variados. Suas criativas estátuas de papel machê ficaram famosas em sua cidade. E os blocos carnavalescos serviam-se ainda de sua grande habilidade em produzir carros alegóricos, máscaras e fantasias primorosas.

Sua última arte, empreendida também com grande sucesso, foi a literatura. Escreveu uma série de contos, crônicas e artigos, publicados no jornal Tribuna de Lavras, sempre muito apreciados pelos leitores desse jornal. Essa arte culminou com a publicação de um pequeno livro, Cartas do Zé Destro, que atualmente tem feito grande sucesso em sua terra natal e arredores.

Nosso grande lavrense expressou sua criatividade em todas as artes humanas, pois foi pintor, desenhista, escultor, músico e literato. Sua mais primorosa arte, no entanto, exercida no anonimato, foi o humanitarismo. Dedicou-se o quanto pôde à assistência social, trabalhando por muitos anos como voluntário na APAE, Sociedade de assistência a excepcionais, e em uma instituição filantrópica, o S.O.S., Serviço de Obras Sociais, através da qual auxiliou grande número de pessoas carentes de sua cidade.

Portador de um intelecto ativo, jamais se deteve na tarefa do autoaprimoramento. Atualmente empenha-se na confecção de caixas e embalagens, às quais segue aplicando seu empenho criativo, que sempre agrada a todos. Apesar da idade avançada, está sempre cheio de otimismo e entusiasmo. Em 1998, quando ainda a informática era um mistério para muitos, representando uma grande dificuldade, especialmente para as pessoas de sua idade, ele não se intimidou diante de um computador. Aprendeu a dominá-lo e logo pôde dar vazão ao gosto pela correspondência, conectando-se com pessoas dos mais diversos países através da Internet. Relembrando seu tempo de jovem, quando se comunicava com o mundo por meio do Esperanto, refez novos amigos através desse idioma, servindo-se agora dos ágeis veículos da informática.

Esse foi e é Luiz Teixeira da Silva, o Sr. Tute, como é conhecido por muitos, quem nos tem dado o mais expressivo exemplo de alguém que, a despeito de muito pouco ter recebido da vida, muito pôde empreender, em favor da melhoria do mundo em que vivemos.

Uma pequena amostra de seu belo trabalho pode ser apreciada neste site, onde se encontram alguns de seus desenhos e pinturas, bem como contos, artigos, charges e o referido livro de sua autoria.

Percorra-o e comprove por você mesmo que esse nosso mineiro bem merece vestir-se de ouro.

Belo Horizonte, 15 de novembro de 2010

Gilson Freire

tutem

Nosso Mineiro de Ouro em seu computador, em 1998

Friday the 24th.