Está Tudo Mudado!

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Você já viu, nos supermercados há a prateleira de produtos hortifrutigranjeiros com agrotóxicos, que são mais baratos e outra prateleira com os mesmos produtos, orgânicos, que são mais caros.

O pobre é mesmo o azarado de sempre. É obrigado a se alimentar, conscientemente, dessa comida mais barata, porém nociva à saúde.

Hoje não há mais fundo de horta cercado de bambu, mandacaru ou simplesmente com mourões e três fios de arame farpado. Os quintais são agora cimentados e murados. Antigamente, quando não se usava o serviço público de recolhimento do lixo, na periferia tudo era atirado no próprio terreno atrás da casa: papéis, resto de comidas, latas vazias, água da tina, frutas podres, casca de bananas, etc., o que tornava o solo adubado e fértil. Todos tinham seu canteiro de cebolinha, salsinha e tomatinho miúdo para o molho. Alguns até plantavam em excesso e vendiam nos tabuleiros ou balaios, apregoando preços reduzidíssimos pelas ruas. Mas esse tempo já passou, está tudo mudado. O quiabo não baba mais, o pepino não dá mais água, a dona de casa não mata o frango, a carne de porco precisa ser cozida na panela de pressão. O próprio porco não é mais um porcalhão, vive num ambiente muito limpo. Saibam, aliás, que antes da invenção do náilon era o porco quem fornecia as cerdas para nossas escovas de dente. Hoje esse bicho praticamente nem tem mais pelos longos. Antes era preciso sapecá-lo, depois de abatido, com fogo feito de folhas secas de bananeira para deixar a pele limpa.

O arroz preto e o açúcar mascavo eram comidas de pobres e se podia comprá-los muito mais em conta do que arroz branco e o açúcar refinado que eram trabalhosos de se produzir. Hoje são produtos sofisticados, muito mais saudáveis do que os industrializados, porém inacessíveis àquele que não tem recursos para adquiri-los.

Tudo mudou. Todo mundo tem pressa. Não há nem tempo para curtir uma doencinha. Os medicamentos são de efeitos rápidos e violentos. Tem-se que ficar curado no mesmo dia ou quando muito, no dia seguinte. Ninguém teria hoje paciência de tomar uma colher de sopa de hora em hora até esvaziar uma garrafa de medicamento manipulado na “pharmácia”, como já foi moda. Tudo mudou... É verdade que muita coisa para melhor, mas outras, ah!.. Ficou uma tristeza muito grande, difícil de ser aceito pelos mais velhos.

Luiz Teixeira da Silva

14 de outubro de 2002

Wednesday the 20th.