É Hora de Colorir a Morte

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Aviso ao Leitor – Certamente este artigo será apreciado apenas em um futuro próximo, quando a morte será encarada como um simples fenômeno de transferência de dimensão e o homem passar a morrer de uma forma natural e amena depois dos 120 anos de vida. Até o momento, não temos suporte emocional para ver o cadáver de uma criança ou de um jovem mortos nas mais variadas e trágicas circunstâncias em que assistimos diariamente na TV.

Cada povo e crença religiosa interpretam de uma maneira diferente o falecimento de uma pessoa. Os funerais são celebrados pela humanidade desde as orgias pagãs da antiguidade até o respeito reverencial com advento do Cristianismo.

Budismo, Hinduísmo, Judaísmo, Islamismo, Cristianismo, Umbanda, Espiritismo, etc., todos têm um velório diferenciado. Esse costume antigamente era muito rígido, excessivamente fúnebre e admitia até práticas absurdas. Houve povo que queimava viva a viúva junto com o corpo do marido. De acordo com a Bíblia, a viúva era obrigada a casar com o cunhado solteiro, se houvesse.

Com o correr do tempo, o velório foi se modificando, tornando-se mais simples, com costumes toleráveis como colocar uma moeda de prata na boca do morto – era o pagamento ao barqueiro Caronte, quem, segundo a tradição grega, devia transportar a alma do falecido até o outro lado do Rio Estige, que separava os mortos dos vivos. Em nosso meio, não faz muito tempo, as mãos não poderiam ir soltas; tinham que ser amarradas com o terço ou o rosário. E o morto não podia ser enterrado descalço. Tudo à luz de velas, trajes pretos, lágrimas e ladainhas. Com direito a carpideiras, verdadeiras atrizes, que eram mulheres pagas para chorar o morto. Era moda fotografar o caixão com o defunto. Tinha o luto dos familiares. As mulheres vestiam-se de preto durante um certo tempo. Os homens usavam uma tarja preta na manga do paletó ou no chapéu. Antes do advento do rádio, o anúncio da morte e convite para o enterro era noticiado através de um folheto com tarja preta, distribuído de porta em porta. Atualmente esses costumes são difíceis de serem encontrados.

Os familiares, hoje, pouco se envolvem com o morto. As empresas funerárias, com seus excelentes profissionais, cuidam de tudo. Entregam o defunto bem vestido, maquiado, no caixão pleno de flores. Ao lado está um farto lanche de café e biscoitos. O velório ficou menos fúnebre e deu lugar a convívio familiar mais ameno em torno do morto, onde as lágrimas são escassas.

Velar um defunto a noite inteira é costume que já não se usa mais em algumas cidades brasileiras. A família se retira, deixa o falecido sozinho. Vai descansar, alimentar-se, dormir confortavelmente em casa e voltar na manhã seguinte para o sepultamento. Aqui vale citar uma mensagem encontrada numa tumba de um Faraó à sua esposa: “Não deixeis de comer, de beber, de embriagar-te e de praticar o amor; não deixeis que a tristeza invada-te o coração”.

A morte é a única certeza que o homem tem desde o dia em que nasce. O indivíduo deveria, portanto, treinar a morte durante a vida, assim estaria mais tranquilo quando chegar a sua hora.

Todos os povos e crenças apregoam a vida após a morte. Até o índio, ao qual não foi ensinado, já nasce com a intuição de que há o espírito sobrevive ao corpo. A morte seria, assim, apenas uma longa viagem empreendida pelo querido falecido. Nada mais que saudades. Por que não darmos ouvidos a todas as crenças e passar a enfrentar a dita cuja com galhardia? Por que não colori-la? Caixões de cores vivas: amarelo, azul, verde, listrados, e até nas cores do time do morto. Um travesseiro mais alto para apoiar a cabeça do falecido para não deixar as fossas nasais à mostra – é deselegante. Música descontraída. Nada de pano preto, nem velas. Até mesmo o crucifixo deveria ser cultuado no lugar certo, na igreja, onde o Salvador é respeitosamente reverenciado. Se a presença de um símbolo cristão nos agrada, em atenção à nossa fé e nossos costumes, que seja um Cristo vivo, alegre, receptivo, acolhedor.

Acho que esse dia está próximo. A ciência está, aos pouco, se envolvendo com os mistérios das religiões. Breve vai provar em laboratório que a alma existe e sobrevive à morte.

  

Luiz Teixeira da Silva

Lavras, fevereiro de 2012

 

Wednesday the 20th.