Coincidência, ou os Espíritos Ajudaram?

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A Letônia é um dos países bálticos, ao lado da Lituânia e da Estônia. A nação tornou-se independente com a desagregação do URSS, em 1991. A nacionalidade lética sempre teve língua própria, usada quase sempre na intimidade do lar. Comercialmente e nas escolas o uso do idioma das nações que sempre interferiram no país desde o século XII era obrigado. Nos lares ensinavam-se a ler e escrever em letão. Até há pouco tempo usavam-se alguns livros didáticos escritos por Rudolf Wagner Libeck, personagem de nosso "causo".

Nos últimos anos do século passado, este senhor, a serviço do Rei Nicolau II, partiu da Rússia, na qual estava incorporada a Letônia, sua terra natal, a caminho da América do Sul, para pesquisas botânicas. Começou pela Venezuela e veio percorrendo, durante anos, os países sul-americanos. No começo de 1907 chegou a Lavras, onde pretendia ficar alguns meses para descansar e recuperar as forças perdidas nos longos anos visitando florestas e convivendo com os índios. Logo fez amizade com os vultos municipais da época. O Dr. Samuel R. Gammon programava inaugurar a Escola de Agricultura, hoje UFLA, em 1908 e como estava em dificuldades para encontrar um professor, creio que de botânica, para iniciar as aulas, pediu para que ele ficasse aqui pelo menos até o final do ano inaugural. O professor Rudolf atendeu ao apelo do ilustre amigo. O Sr. Rudolf, já madurão, não resistiu aos encantos da morena Chiquita, irmã do professor Firmino Costa. Noivaram e se casaram. Logo nasceu o filho querido, o Tautemil.

Terminado o ano inaugural da Escola de Agricultura, o Sr. Rudolf viajou para o Rio de Janeiro, indo à embaixada da Rússia prestar contas de seus atos ao Rei Nicolau II. Mas aconteceu de falecer repentinamente numa rua da Capital. Um jornal editado em língua russa publicou a notícia, salientando que o conterrâneo procedia de Lavras, estado de Minas Gerais. Estes jornais eram remetidos à Rússia e lá encadernados em volumes que permaneciam na Biblioteca Pública. A viúva, com o Tautemil bebê, começou a enfrentar dificuldades para pagar o aluguel do casarão que moravam, atrás da Igreja do Rosário, mudando-se, então, para uma casa modesta na rua da Fábrica, hoje rua Vaz Monteiro. Nesta região, quando chovia, sempre havia inundação.

Uma vez, após uma tempestade mais forte, houve uma grande enchente, a casa de dona Chiquita foi invadida pelas águas e lá se foram as coisas do marido: pinturas, fotos, escritos, o violino, partituras, ferramentas e documentos. O menino Tautemil Libeck foi crescendo sabendo pouca coisa a respeito do pai e a mãe também tinha poucas informações a fornecer, pois conviveu pouco tempo com o marido. O Tautemil tornou-se adulto e foi o homem maravilhoso que todos nós sabemos:  inteligente, culto e notável inventor.

Agora, vem o segundo capítulo desta história. Em 1970, uma senhora residente na URSS, mais precisamente na Letônia, na cidade de Riga, encontrou o meu endereço numa revista especializada e, daí iniciamos uma troca de correspondência no idioma Esperanto, para a permuta de selos e cédulas para coleção. Em 1980, depois de 10 anos de amizade postal, cuja correspondência era apenas sobre filatelia e numismática, recebi uma longa carta de minha correspondente relatando que fora à Biblioteca Pública para uma determinada consulta e, em dado momento, sentiu um impulso para pegar uma coleção de jornais antigos publicados no Rio de Janeiro, em língua russa. Folheando-o encontrou a notícia da morte do Sr. Rudolf Libeck em 1908. Como o artigo informava que ele procedia de Lavras, justamente onde ela me tinha como correspondente, desejava então saber se eu sabia algo sobre esse senhor. Descreveu a dedicação que a população lética tem pelo Sr. Rudolf, que na ocasião usava ainda livros didáticos, em letão, para o aprendizado no lar.

Rudolf foi contemporâneo de Zamenhof (criador do Esperanto) e foi ele também quem escreveu o primeiro compêndio em letão para se aprender o idioma internacional. A população havia perdido o contato com Rudolf, há muito não sabia sobre o seu paradeiro na América do Sul. Como o regime político na Rússia era muito severo, ninguém teve coragem de dirigir-se ao governo para pedir notícias . E assim, falecendo os habitantes mais velhos, os mais novos continuaram cultuando a memória do Sr. Rudolf, porém cada vez sabendo menos sobre o seu destino.

Procurando o Tautemil, expus-lhe o fato ocorrido. A sua emoção foi muito grande! Rudolf fora seu pai. A partir daí houve uma troca de correspondência entre a senhora russa e eu, sempre em Esperanto. Trocamos muitas informações e passamos a conhecer muitas coisas sobre a família Libeck. O Tautemil recebia com muita alegria as notícias sobre o pai, sempre elogiosas que lhe enchiam a alma de grande satisfação, conhecendo as suas origens.

Ficamos sabendo o quanto foi grande o Sr. Rudolf Wagner Libeck, fora o redator do folheto em letão que convidara seus conterrâneos a emigrarem para o Brasil, onde fundaram uma comunidade de nome Varpa (espiga em letão) no estado de São Paulo. Por ocasião do falecimento de Tautemil, em 1993, várias e merecidas homenagens apareceram na Tribuna de Lavras, todas foram traduzidas para o Esperanto e enviadas à minha correspondente, que as verteu para o idioma letão. Foi coincidência? Ou os espíritos engendraram tudo para aplacar a angústia do Tautemil que ansiava por informações sobre o seu pai e a sua origem?

Lavras, setembro de 1998

Luiz Teixeira da Silva

Wednesday the 20th.